Sorry, Baby (2025)
Direção: Eva Victor

Os nossos olhos se lacrimejam antes mesmo de sabermos exatamente por quê. O coração palpita, não por tensão narrativa clássica, mas por uma ansiedade que parece refletida na tela, como se o filme respirasse no mesmo ritmo da protagonista. A mente, inquieta, começa a projetar impossibilidades, caminhos que não se fecham, futuros que não se oferecem. E, ainda assim, há beleza. Uma beleza estranha, delicada, que não nasce da resolução, mas da partilha de um estado emocional vivido mais no corpo do que na razão.
Essa beleza se manifesta por meio de uma ironia aflita, profundamente humana. Um riso surge, às vezes leve, às vezes profundo, às vezes desajeitado, e ele não se opõe à dor, nem a diminui. Ao contrário, encaixa-se como uma válvula de escape legítima da protagonista. Não é um riso que alivia, nem que resolve, é um riso que permite continuar. Em certos estados de sofrimento, continuar já é um gesto radical, e o filme entende isso com rara precisão.
A linha que separa ironia de crueldade, humor de desrespeito, riso de violência simbólica é finíssima nesse tipo de obra. Qualquer passo em falso transformaria o gesto em cinismo ou, pior, em banalização. O que impressiona em Sorry, Baby é que Eva Victor, diretora, roteirista e protagonista do filme, caminha exatamente sobre essa linha como quem sabe que não existe rede embaixo. O filme não flerta com o risco por vaidade autoral, ele o assume por necessidade ética.
O humor do filme nunca nasce sobre a dor. Ele nasce ao redor dela. Reconhece o peso do que não pode ser dito, do que não deve ser mostrado e, justamente por isso, encontra formas oblíquas de existir. Não há punchline, não há esperteza, não há desejo de parecer “inteligente demais”. Há apenas o entendimento profundo de que, em determinados estados emocionais, rir não é desrespeito, é respiração. Uma respiração curta, às vezes torta, mas vital.
Esse risco assumido é duplo, estético e ético. Estético, porque o filme poderia facilmente ser lido como frio, estranho ou mal-humorado por quem espera respostas claras ou arcos tradicionais. Ético, porque qualquer deslize transformaria a ironia em algo violento. Ainda assim, o filme confia na inteligência do espectador e, sobretudo, confia na delicadeza da encenação. O humor nunca antecede o cuidado, ele sempre vem depois do silêncio.
Talvez o mais impressionante seja justamente isso, Sorry, Baby não tenta se justificar. Não sinaliza virtude, não pede permissão, não sublinha sua própria sensibilidade. Ele simplesmente age com respeito e permite que o espectador perceba isso no corpo, não no discurso. É um cinema que entende que certas experiências não precisam ser “bem representadas”, mas bem acompanhadas.
Ao longo dos três anos que se seguem, o que se transforma em Agnes não é apenas o modo de sentir, mas o modo de pensar a vida. Não há superação, nem retorno ao ponto de origem. Há uma reorganização silenciosa da existência. A vida passa a ser habitada com mais cautela, mais atenção aos detalhes, mais consciência de seus próprios limites. O filme entende que certas crises não produzem respostas, mas um novo estado de presença, mais frágil, mais lúcido, mais atento ao agora.
Essa mudança não se expressa em grandes formulações verbais, mas em gestos mínimos e tempos dilatados. Agnes observa mais do que age, escuta mais do que fala. Viver passa a exigir um cuidado constante, quase vigilante. Não se trata apenas de uma crise psíquica ou existencial, mas de uma alteração profunda na relação com o tempo, com o corpo e com o próprio direito de existir sem explicações.
É nesse ponto que o filme constrói um de seus paralelos mais delicados, a vivência de Agnes com a bebê de sua melhor e única amiga. Enquanto Agnes tenta sustentar uma vida que precisou ser reinventada, a criança representa uma vida que começa sem memória, sem linguagem, sem feridas. Não como contraponto cruel, nem como símbolo de esperança fácil, mas como outro ritmo de existência, absolutamente diferente e, ainda assim, próximo.
Esse paralelo se completa de maneira ainda mais bonita quando lembramos da conversa de Agnes na calçada com Pete. Ali, ela escuta alguém que já atravessou o tempo, que carrega perdas, desgaste e uma sabedoria sem glamour. Não há consolo nem resposta definitiva, apenas a constatação de que é possível continuar vivendo mesmo depois de muito. Pete fala do lugar de quem chegou longe demais para prometer qualquer coisa além da continuidade.
No extremo oposto, o momento final em que Agnes fala com a bebê não é exatamente um diálogo, nem um monólogo. É um endereçamento. Ela fala para alguém que ainda não entende palavras, mas entende presença. Se com Pete ela escuta o que resta depois de tudo, com a criança ela fala antes que qualquer coisa aconteça. Agnes ocupa exatamente esse intervalo frágil entre começo e fim, entre memória e ausência de memória, entre o que dói e o que ainda não sabe doer.
Essa rima silenciosa é o gesto mais bonito do filme. Sorry, Baby não oferece síntese, nem fechamento, nem redenção. Oferece companhia. Sugere que talvez o sentido da vida não esteja nem na sabedoria de quem já viveu demais, nem na pureza de quem acabou de chegar, mas nesse espaço intermediário onde aprendemos a existir ouvindo quem veio antes e falando com quem ainda não responde. Complexo demais. E, justamente por isso, profundamente lindo.
