Pobres Criaturas (2023)
Direção: Yorgos Lanthimos

A arte, em suas diversas formas, insiste em tensionar os limites entre o humano e o inumano, entre aquilo que podemos tocar e aquilo que só ousamos imaginar. Pobres Criaturas, de Yorgos Lanthimos, não é apenas uma narrativa sobre ciência e experimentos; é uma parábola sobre poder, desejo e a possibilidade radical de recriação de si. É também um mergulho numa estética grotesca e sedutora, onde misticismo, política, sexo e tecnologia colidem em imagens de beleza perturbadora.
Logo de início, somos apresentados ao Dr. Godwin Baxter, uma figura que poderia ter saído de uma fábula alquímica. Seu laboratório não é apenas espaço científico, mas quase um templo esotérico, onde cadáveres são ressuscitados como se fossem matéria-prima da criação divina. A recriação de Bella, com a mente de um bebê em um corpo adulto, traz à tona a fusão de ciência e misticismo: estamos diante de um Frankenstein contemporâneo, mas também de um mito gnóstico de renascimento, onde o humano é redesenhado sob o signo da transgressão.
É nesse corpo, inicialmente infantilizado, que o filme começa a questionar os tabus sexuais e as convenções sociais. Bella, em sua curiosidade radical, recusa o silenciamento da moral. Quando descobre o prazer sexual, não o faz sob a ótica do pecado ou da vergonha, mas como parte de sua educação para a vida. Ao contrário das mulheres ao seu redor, condicionadas pela repressão vitoriana, Bella assume o sexo como uma forma de conhecimento. O choque do público é justamente esse: perceber que aquilo que a sociedade reprime como escandaloso é, para Bella, apenas uma pulsão vital. O erotismo não é apenas físico; é político. A cada experiência, ela retira uma camada da couraça patriarcal que a cerca.
E aqui se insere a dimensão mais profundamente feminista do filme. A jornada de Bella é um manifesto visual pela autonomia da mulher. Se no início ela é literalmente moldada pelas mãos de um homem, ao longo da trama ela passa a reverter essa lógica, reivindicando sua liberdade em cada gesto, em cada escolha. Sua recusa em se submeter ao papel de esposa submissa é um dos momentos mais emblemáticos: a cena em que ela rejeita as amarras de um casamento arranjado funciona como símbolo de um feminismo visceral, que nasce não do discurso, mas da vivência. Bella aprende a dizer não e, mais do que isso, aprende a se colocar como protagonista de sua própria narrativa.
Mas essa libertação não ocorre em um vácuo. O filme insiste em mostrar como a exploração do indivíduo é o motor das estruturas sociais. Bella é observada, manipulada, disputada como se fosse um objeto raro. Seja pelo cientista que a ressuscitou, seja pelos homens que tentam domesticá-la, seja até pelo sistema econômico que lucra com seu corpo e sua força de trabalho, ela é constantemente reduzida a mercadoria. Em uma das passagens mais impactantes, quando Bella entra em contato com a realidade brutal das classes mais pobres, a obra nos lembra que não existe libertação individual sem confrontar o abismo da desigualdade.
A política surge, então, como pano de fundo e ao mesmo tempo como mecanismo de controle. O mundo de Bella é atravessado por sistemas de poder que tentam regulá-la: a ciência que a produziu, a moral que quer domá-la, os homens que tentam possuí-la. É uma política difusa, que não se restringe ao parlamento ou ao palácio, mas que se infiltra nos corpos e nos desejos. A trajetória de Bella é também a recusa a esse poder: ela se torna líder de si mesma, forjando um caminho de resistência contra cada tentativa de aprisionamento.
Nesse sentido, temos aqui também um filme sobre os limites da tecnologia. O renascimento de Bella coloca em pauta o dilema da criação artificial. Até onde a ciência pode ir? A quem serve esse avanço? Lanthimos constrói seu argumento com ironia: a tecnologia não aparece como neutra, mas como extensão dos desejos e egoísmos humanos. O gesto de Baxter é um ato de poder travestido de ciência. Em tempos em que discutimos inteligência artificial, manipulação genética e biotecnologia, o filme soa como advertência: a técnica pode tanto emancipar quanto escravizar. O que importa é quem a controla e para que.
O que torna a obra ainda mais fascinante é sua forma. A fotografia distorcida, as lentes que deformam o espaço, os cenários que parecem saídos de um pesadelo barroco — tudo contribui para a sensação de estarmos diante de um mundo ao mesmo tempo maravilhoso e grotesco. A estética não é gratuita: ela traduz visualmente o conflito interno da narrativa, onde beleza e horror caminham juntos.
No fim, a trajetória de Bella é uma odisseia de emancipação. Do laboratório de Baxter às ruas tomadas pela exploração capitalista, ela atravessa mundos e sistemas de poder para enfim se tornar sujeito pleno. O filme não responde de maneira simples às questões que levanta. Ao contrário, nos deixa inquietos: a liberdade é possível? O desejo pode ser emancipador ou será sempre colonizado pelo olhar do outro? A tecnologia é libertação ou prisão?
Pobres Criaturas nos lembra que a criação, seja científica, política ou social, sempre envolve dor, poder e disputa. Mas também nos mostra que a emancipação começa quando alguém ousa experimentar, ousa recusar, ousa viver segundo a própria vontade. Bella não é apenas uma personagem. Ela é um manifesto vivo.
