Críticas

Mulheres Diabólicas (1995)

Direção: Claude Chabrol

Mulheres Diabólicas (1995)
Em Mulheres Diabólicas, o cotidiano é filmado como um campo de forças. A trama se passa em uma casa organizada, silenciosa e aparentemente harmoniosa, onde cada gesto e palavra esconde uma hierarquia. A câmera observa essa rotina sem pressa, expondo o contraste entre o conforto dos patrões e o desconforto da empregada recém-chegada, Sophie, interpretada por Sandrine Bonnaire. A maneira como o espaço é filmado já revela o desequilíbrio: enquanto a família ocupa planos amplos e luminosos, Sophie é enquadrada em recortes estreitos, cercada por portas e sombras. O ambiente dita as relações de poder antes mesmo que o diálogo comece. A figura masculina central simboliza o patriarcado em sua forma mais cotidiana. Ele não domina por meio da violência, mas pela autoridade calma e racional. Corrige, explica e impõe suas ideias com naturalidade. Essa postura é a regra social que organiza a casa. A esposa, os filhos e a empregada orbitam em torno desse eixo, conscientes ou não. É nesse retrato que o filme mostra como o patriarcado pode se sustentar sem gritos, apenas pela aparência de ordem. A trilha composta por Matthieu Chabrol tem papel decisivo. Ela não serve como mero acompanhamento emocional, mas como alerta. Os acordes de cordas criam uma tensão que antecede os acontecimentos, como se a música soubesse o que o espectador ainda não percebeu. É o som do pressentimento. Esse uso da trilha não é decorativo: ela atua como uma consciência paralela, ampliando a sensação de que algo inevitável está prestes a acontecer. Mesmo nos momentos tranquilos, há uma inquietação discreta, uma vibração que anuncia o colapso. O contraste entre a elegância do som e a simplicidade das imagens reforça o clima de dissonância. O cenário é calmo, mas a música parece avisar que a calma é ilusória. Essa combinação cria o verdadeiro suspense do filme, que não depende de sustos ou surpresas, mas da expectativa crescente de ruptura. O espectador sente o perigo antes de vê-lo. A amizade entre Sophie e Jeanne, vivida por Isabelle Huppert, nasce nesse ambiente contido. Elas se aproximam por identificação e ressentimento. As conversas, aparentemente banais, carregam um desconforto social profundo. As duas pertencem a um mundo que as observa de cima, e encontram uma espécie de alívio ao dividir o incômodo. O filme retrata essa relação com precisão: a cumplicidade entre elas é também o reflexo de um sistema que não oferece saídas. A revolta que surge não é heroica, mas consequência de uma vida inteira de silêncio. No desfecho, o que era pressentido se concretiza. A tensão acumulada se transforma em ação, mas sem trazer libertação. A cena final não é catártica no sentido tradicional, porque não oferece alívio ou mudança. O que ocorre é uma liberação momentânea, seguida pela confirmação de que tudo volta ao ponto de partida. É a chamada catarse trágica: a verdade aparece, mas não corrige nada. O ciclo permanece intacto. O último som é o que mais permanece na memória. A gravação que mistura uma ópera com o ruído do que acabou de acontecer é a síntese de todo o filme. A beleza e a violência coexistem na mesma faixa sonora. É a cultura colidindo com aquilo que ela tenta esconder. A música, símbolo da sofisticação burguesa, é invadida pelo barulho cru da destruição. A arte, que deveria elevar, torna-se prova. A fita continua tocando mesmo depois que a história termina, como se o mundo civilizado continuasse a repetir seus próprios erros. Mais do que um thriller social, Mulheres Diabólicas é um retrato sobre a manutenção do poder. Mostra como a desigualdade e o patriarcado sobrevivem através dos gestos sutis, das palavras educadas e do som que avisa, mas ninguém ouve. É uma história sobre o que acontece quando o silêncio de uma classe e a frieza de outra se encontram. O filme termina, mas o som permanece, e com ele, a lembrança de que ainda vivemos dentro dessa mesma estrutura.