Mickey 17 (2025)
Direção: Bong Joon-ho

Bong Joon-ho é um cineasta que construiu sua carreira explorando as contradições do sistema capitalista e suas consequências sobre o indivíduo e a sociedade. Em Mickey 17, ele amplia essa crítica ao abordar o conceito de colonização espacial e o impacto das ambições humanas, trazendo para o debate temas que dialogam com a história e o presente. O filme, embora estruturado como uma aventura de ficção científica com tons cômicos, carrega um subtexto denso, repleto de questionamentos sobre poder, identidade e exploração.
O ser humano sempre esteve em busca de expansão, seja territorial, econômica ou tecnológica. O colonialismo, presente ao longo da história, é um reflexo dessa ambição desenfreada. Se no passado impérios como o Britânico e o Espanhol justificavam suas conquistas com o discurso da civilização, hoje essa mesma lógica se repete na exploração espacial, onde grandes corporações e bilionários enxergam o cosmos como a próxima fronteira de dominação. Mickey 17 expõe essa dinâmica através de sua narrativa distópica, onde o protagonista – um clone descartável enviado para missões suicidas – se torna um símbolo da forma como o sistema trata indivíduos como recursos substituíveis. Essa metáfora se conecta diretamente à exploração do trabalho humano em diferentes momentos da história, desde a escravidão no período colonial até a precarização do trabalho na era moderna.
A figura do antagonista, interpretado por Mark Ruffalo, sintetiza o pedantismo de figuras políticas e empresariais do mundo real. Ele representa aqueles que, movidos pelo desejo de poder e status, moldam o destino de sociedades inteiras sem qualquer preocupação ética. Esse arquétipo remete a indivíduos com grande fortuna, que utilizam sua influência para construir impérios privados, desafiando as normas sociais e humanas em nome de uma “visão” pessoal, frequentemente disfarçada de "salvação". São pessoas que, em busca de dominância, demonstram uma obsessão por controle e um comportamento imune a críticas, utilizando a tecnologia e os recursos naturais como meios para seus fins.
Dentro dessa estrutura narrativa, Robert Pattinson se destaca ao interpretar um protagonista que oscila entre a frieza da lógica e o medo existencial. Seu personagem reflete a alienação do indivíduo em um sistema que o enxerga como peça descartável, uma situação que historicamente pode ser comparada à condição do proletariado na Revolução Industrial ou à mecanização do trabalho no século XXI. Sua atuação transmite essa dualidade de forma precisa, tornando-se um dos pontos altos do filme.
Mesmo que Mickey 17 seja uma ficção científica com elementos cômicos, seu roteiro carrega discussões sobre política, economia, ecologia e identidade. Esses temas aparecem nas entrelinhas, mas ecoam com questões reais. O impacto da exploração dos recursos naturais, por exemplo, dialoga com os danos causados pela Revolução Industrial, enquanto a perda de identidade do protagonista remete às sociedades de controle, como o regimes ditatoriais ou o próprio sistema capitalista contemporâneo, que dilui a individualidade em meio ao consumo e à produção incessante.
Bong Joon-ho, que em Parasita expôs as desigualdades sociais de forma visceral, em Mickey 17 amplia sua crítica para o contexto global. Seu olhar anti-colonialista nos faz refletir sobre os erros do passado e como eles continuam a se repetir. O que antes era a busca por territórios na Terra agora se traduz na corrida pelo espaço, mas os mecanismos de poder, exploração e desigualdade permanecem os mesmos, representando um retrato de um ciclo histórico da humanidade.
