Críticas

Mesa Maldita (2022)

Direção: Caye Casas

Mesa Maldita (2022)
Não temos aqui um filme de horror espetacular, nem exatamente plausível. E justamente por isso, incomoda tanto. Porque nesse universo de personagens fragilizados, emocionalmente desorganizados e mentalmente instáveis, o nada é tudo. É o que sufoca, o que paralisa, o que conduz à tragédia. O filme mergulha no silêncio, nas reações erradas, na ausência de enfrentamento. E constrói seu horror a partir dessa psique rachada, onde ninguém consegue sustentar a realidade por muito tempo. Logo no início, o filme estabelece sua crítica ao consumismo e à masculinidade fragilizada. Jesus compra uma mesa de centro de gosto duvidoso, que simboliza seu desejo de controle e afirmação dentro de um ambiente familiar já em colapso. A casa não é um espaço de afeto, mas de disputa silenciosa. A escolha do móvel, em sua inutilidade estética e funcional, já carrega o absurdo do qual o filme irá se alimentar. A narrativa é dividida em blocos curtos, com cortes que lembram capítulos. Essa estrutura fragmentada dá uma sensação de desconexão entre as cenas. Em alguns momentos, essa quebra de fluidez contribui para o desconforto, mas em outros compromete a imersão. O ritmo é irregular e nem sempre está a serviço da tensão. O filme parece deliberadamente desorganizado, mas não necessariamente isso funciona a seu favor em toda a extensão. A cena central do filme é construída com precisão. Um plano levemente movimentado, que se ajusta de forma sutil, marca o ponto de ruptura. A câmera não dramatiza nem recua, apenas registra o essencial. Não há trilha sonora nesse momento. O impacto vem do silêncio e da contenção. É o tipo de cena que exige atenção do público e recompensa com desconforto, não pelo que mostra, mas pelo que sugere. A campainha, por sua vez, é um recurso sonoro importante. Aparece mais de uma vez, sempre como elemento de tensão. Ela é atendida, o que a torna mais perturbadora. Sua função é interromper, desviar e tensionar. Ela representa o mundo de fora invadindo o caos interno e sendo ignorado na prática. Cada toque carrega a frustração de algo que poderia ter sido resolvido, mas não foi. As atuações são desiguais, mas interessantes. A mãe apresenta uma performance ambígua, marcada por variações abruptas de humor, hesitação e apatia. Em certos momentos, ela parece anestesiada. Em outros, reage de forma desproporcional. Essa oscilação pode sugerir uma instabilidade psíquica mais profunda, possivelmente ligada a uma depressão pós-parto não verbalizada. Jesus, por sua vez, começa o filme tentando impor autoridade de maneira firme, mas se desfaz aos poucos. Ao final, sua postura é de completo desequilíbrio, obviamente, e desconexão emocional. O mais irônico é que os outros personagens, igualmente frágeis, demoram a questionar ou intervir com clareza. O diretor parece querer mostrar que, em um ambiente emocionalmente falido, ninguém é capaz de reconhecer a loucura no outro porque todos já perderam algum grau de sanidade. O colapso de Jesus não causa choque. É só mais um ruído dentro de uma convivência já marcada pela alienação, pela negação e pela falta de reação. Essa escolha amplia o desconforto e sugere uma crítica direta à banalização do sofrimento mental e à covardia diante da dor do outro. O filme entrega uma catarse no fim, acompanhada por uma trilha sonora inesperada, com tom quase tarantiniano. O contraste entre a música e o desfecho trágico produz um efeito irônico e incômodo. Não é uma explosão emocional, mas uma síntese amarga de tudo que foi contido. The Coffee Table incomoda porque retrata um tipo de horror possível, alimentado por orgulho, omissão, fragilidade mental e emocional. Mesmo com escolhas estéticas irregulares, o resultado final tem força e continua reverberando depois da última cena.