Críticas

Hallow Road: Caminho Sem Volta (2025)

Direção: Babak Anvari

Hallow Road: Caminho Sem Volta (2025)
Temos aqui uma obra que não se oferece como história, mas como enigma. Hallow Road, do iraniano Babak Anvari, é um desses trabalhos que não pedem apenas atenção, mas silêncio interior, aquele silêncio que se instala quando sentimos que há algo por trás daquilo que vemos, algo que não pode ser dito de forma direta. A estrada que percorremos não é apenas um espaço físico: ela se converte em metáfora da mente, um território onde cada sombra é lembrança, cada curva é trauma, cada claridade é apenas o intervalo breve antes de nova escuridão. A câmera recusa a distância. Permanece colada aos rostos, como se quisesse nos prender ao mínimo tremor de um lábio, ao olhar que hesita, ao gesto que não se completa. É um confinamento sufocante, e é justamente por isso que o filme respira dentro de nós. A paisagem externa, o deslocamento da cidade ao campo, a transição entre luz e breu. Tudo isso poderia estar ali, mas não está. O diretor opta pelo interior, pelo psicológico, pela clausura. Não caminhamos por cenários, caminhamos por consciências em colapso. E é nesse labirinto íntimo que surgem as repetições. Uma frase já foi dita antes, um gesto parece ecoar, um objeto quebrado denuncia que nada começa exatamente do zero. O filme trabalha como um ritual: os personagens insistem em retomar a estrada, como se repetir fosse a única forma de suportar o peso do acontecimento que não se pode carregar de uma vez só. Há um desejo secreto de reinício, de resetar o percurso, de reorganizar os fatos até que se tornem suportáveis. Como se o tempo fosse elástico, disposto a se dobrar diante de uma culpa que se recusa a aceitar seu próprio limite. Nesse espaço de repetição, o sobrenatural não aparece como choque, mas como linguagem. Ele não se mostra em gritos ou monstros, mas em símbolos discretos que atravessam a narrativa como sinais cifrados: uma data marcada em um aparelho, um adorno de Halloween esquecido na cozinha, uma mitologia celta que sopra sua lenda antiga. Esses elementos funcionam como tradução do indizível. Quando não se pode falar de dor, fala-se através do mito. Quando a realidade se torna insuportável, veste-se o trauma com as roupas do fantástico. Assim, o sobrenatural não é fuga, mas máscara: aquilo que só pode ser aceito quando narrado como lenda. E é nesse ponto que o filme nos devolve ao espelho. Pequenos hábitos se invertem, vícios mudam de mãos, gestos que eram de um tornam-se do outro. Não são apenas personagens em movimento, mas identidades em metamorfose. A estrada funciona como um reflexo invertido: aquilo que mais se rejeita retorna, mas devolvido pelo outro. Como se a noite tivesse o poder de embaralhar papéis, redistribuir culpas, mostrar que cada um carrega dentro de si não apenas aquilo que vive, mas também aquilo que nega viver. No fim, não há conforto, não há revelação plena. O filme não fecha sua narrativa com respostas, mas com insistências. Não explica, sugere. Não ilumina, insinua. O que resta é o enigma: uma estrada que se prolonga dentro do espectador, como se cada um tivesse de percorrê-la novamente ao sair da sala. O que vimos foi real? Foi sonho? Foi delírio de uma mente incapaz de aceitar? Ou foi tudo isso ao mesmo tempo, entrelaçado? A resposta não importa, porque o cinema de Anvari não está interessado em esclarecer, mas em instaurar a dúvida, e, com ela, o desconforto daquilo que se repete dentro de nós. Talvez seja esse o verdadeiro terror do filme: não o que está na tela, mas o que permanece depois dela. A sensação de que cada espectador carrega sua própria estrada sombria, e que nela ecoam os faróis que julgávamos ter deixado para trás.