Foi Apnenas Um Acidente (2025)
Direção: Jafar Panahi

Para falar de "Foi Apenas um Acidente", é preciso antes reconhecer os detalhes estruturais que sustentam a obra. A história, em si, é simples, e é justamente dessa simplicidade que o filme extrai sua força.
Um carro. Uma família. Um homem dirige. A esposa grávida ao lado. A filha no banco de trás. O carro atinge algo na estrada, provavelmente um cachorro, e sofre uma pane. Eles pedem ajuda. São ajudados. Ponto.
Esse é o raciocínio básico que Jafar Panahi estabelece para implantar sucessivos gatilhos de empatia. Uma família comum, uma mulher grávida, uma criança, um animal atropelado, um contratempo mecânico, a ajuda que chega rápido. Cada elemento empurra o espectador para o mesmo lugar emocional.Tudo é construído para gerar acolhimento, identificação e confiança.A estrutura empática está formada.
A ruptura surge a partir de um detalhe mínimo. Um som. Um reconhecimento incerto. A suspeita se inicia, mas não há confirmação. O filme trabalha apenas com hipóteses. Ainda assim, a empatia não se dissolve. Ela permanece, e é justamente essa permanência que torna o gesto do filme tão perturbador. A dúvida só se instala porque o terreno emocional foi cuidadosamente preparado. Em contextos de violência institucional, a memória não opera por imagens nítidas, mas por fragmentos sensoriais. O filme sugere, e isso basta.
A partir daí, o que se desenha é uma espécie de "road movie" de tom cômico-trágico, no qual os encontros não esclarecem, apenas aumentam a incerteza.A narrativa passa a operar em instabilidade constante, e o espectador compartilha dessa suspensão moral, preso entre a necessidade de justiça e a impossibilidade de certeza.
É nesse ponto que o filme revela sua dimensão política construindo uma crítica direta a uma sociedade marcada pela corrupção estrutural, não como exceção, mas como normalidade. A corrupção não aparece em grandes escândalos, mas nos silêncios, nos acordos implícitos, na informalidade das soluções, na forma como o passado violento é absorvido pelo presente sem jamais ser enfrentado. Todos parecem saber algo, mas ninguém sabe o suficiente. A justiça institucional surge frágil, distante ou ausente.
Nesse desenho, som e luz funcionam como elementos narrativos fundamentais, especialmente no início e no final do filme. O som que inaugura a suspeita não explica nada, apenas insiste. Ele retorna como lembrança sensorial, não como prova. O ouvido substitui o olhar e a acusação nasce da sensação. O mesmo acontece com a luz. A presença da luz vermelha no momento inicial do acidente estabelece um sinal de alerta que marca o espaço e o rosto do personagem. Essa mesma luz retorna mais adiante, criando uma rima simples e direta. Não há variação simbólica elaborada, apenas repetição. O sentido não está na mudança e o que volta não volta neutro.
Mais do que deslocar a empatia, Panahi a constrói como uma curva cuidadosamente modulada. O filme conduz o espectador a um ponto máximo de identificação, um ápice emocional sustentado por sinais de vulnerabilidade e urgência. A partir desse ponto, a empatia não se rompe, mas começa a descer lentamente, diluída pela dúvida que insiste em permanecer.
Esse movimento é decisivo. O filme não busca resolver a suspeita nem oferecer alívio moral. Ao contrário, mantém a incerteza ativa enquanto reduz, aos poucos, a intensidade emocional que nos guiava até ali. A empatia começaa se dissolver aos.poucos e o espectador não é empurrado para uma conclusão, mas abandonado em um território instável, onde o sentido pode ou não se reorganizar.
No fim, "Foi Apenas um Acidente" se impõe como um filme sobre dúvida, responsabilidade e memória. Um cinema que entende que, em sociedades atravessadas pela repressão, nenhum evento é totalmente isolado, nenhum gesto é completamente inocente, nenhum acidente se encerra no instante em que ocorre. Panahi não oferece respostas. Ele constrói uma experiência de desgaste ético, em que a empatia atinge seu ápice apenas para, em seguida, ser lentamente esvaziada.O que resta é permanência. E é nesse estado incômodo, onde a dúvida não se fecha por inteira e o sentido nunca se estabiliza por completo, que o filme encontra sua força mais profunda
