Críticas

Faça Ela Voltar (2025)

Direção: Danny Philippou e Michael Philippou

Faça Ela Voltar (2025)
Faça Ela Voltar, dos irmãos Philippou, é um desses exemplares em que a dor é menos dita do que transpirada. O roteiro, muitas vezes, não oferece amplitude para todos os personagens; os coadjuvantes orbitam como ecos de uma história maior, mas nunca chegam a ter carne própria. É Sally Hawkins quem sustenta cada minuto da obra, transformando sua personagem, Laura, em uma cicatriz viva. A câmera poderia ter sido mais generosa com os demais, mas não há como negar: Hawkins carrega nos ombros o peso da narrativa, e sua entrega é tão visceral que qualquer falha de construção se dissolve na força do gesto, do olhar, da respiração suspensa. A estética do filme parece construída para aprisionar: tons frios, corredores estreitos, silêncios que gritam mais que qualquer diálogo. O som é um personagem, rangidos, ecos metálicos, ausências sonoras que lembram como o luto é, acima de tudo, ensurdecedor. A trilha, rarefeita, não embala, inquieta. E quando o vermelho rompe o quadro, quando o sangue irrompe, não é apenas violência, é vitalidade interrompida, lembrança pulsante de que a vida insiste em atravessar mesmo as ruínas. Críticas positivas e negativas convergem em um ponto: o filme não deixa ninguém indiferente. Para alguns, é um terror perturbador, desconfortável, quase traumático. Para outros, peca pela previsibilidade ou pela superficialidade de seu universo ocultista, que nunca se explica por inteiro. E, paradoxalmente, talvez resida aí a força da obra: no ritual incompleto, no que não se entende por completo, como na mente em luto que nunca se explica totalmente nem a si mesma. Laura é a metáfora encarnada da psique humana diante da perda. Sua obsessão em trazer de volta o que já se foi não é apenas sobrenatural, é profundamente real. Quem nunca reviveu mentalmente um momento, um rosto, uma palavra, na tentativa desesperada de retê-los? A casa onde ela vive é o inconsciente, claustrofóbico, cheio de portas fechadas, iluminado por frestas de memória. O ritual que conduz é a tradução simbólica do que todos fazemos ao nos agarrarmos a lembranças, mesmo quando elas nos corroem. Se Piper simboliza a resiliência e Oliver a libertação, Laura é o avesso de nós mesmos, a prova de que, sem aceitação, o luto se transforma em cárcere. É uma personagem que não vive o presente, mas se mantém habitada por fantasmas, até tornar-se um deles. Faça Ela Voltar não é apenas um filme de terror. É uma parábola sobre como a ausência pode se tornar presença constante. Sally Hawkins, em sua entrega radical, nos mostra que perder alguém é também perder a si mesmo, e que o verdadeiro horror não é o sobrenatural, mas a impossibilidade de dizer adeus.