Críticas

Bugonia (2025)

Direção: Yorgos Lanthimos

Bugonia (2025)
Há algo de profundamente calculado na forma como Bugonia constrói seu impacto social, e é impossível dissociar isso da mão firme de Yorgos Lanthimos. Desde o primeiro ato, ele manipula o espectador com a mesma precisão cirúrgica com que seus personagens manipulam uns aos outros. Não há explicações, não há contextualizações artificiais, não há preâmbulo. Ele simplesmente coloca Jesse Plemons, Aidan Delben e Emma Stone no mesmo tabuleiro moral e, de imediato, sabemos quem eles são. Ou melhor, achamos que sabemos, e é exatamente aqui que começa a armadilha. No instante em que a narrativa se abre, somos induzidos a identificar, quase automaticamente, a dupla de Plemons e Delben como figuras arcaicas, socialmente esmagadas, emocionalmente destroçadas por um passado nebuloso que o filme jamais oferece por completo. São homens que carregam no corpo e no olhar a marca de quem foi triturado por estruturas maiores do que eles, e que, por isso mesmo, deslizam facilmente para a paranoia, para a crença conspiratória, para o território pantanoso do incel que encontra, na fantasia de revelar “a verdade”, uma justificativa para sua própria insignificância. Lanthimos nunca diz isso explicitamente. Ele sequer precisa. O espectador lê essa condição nos silêncios, nos objetos espalhados pela casa, na maneira desconjuntada com que ambos olham para o mundo. Do outro lado, Emma Stone aparece como o oposto perfeito: a mulher rica, poderosa, CEO de uma corporação que, numa realidade reconhecível, seria imediatamente acusada de personificar o capitalismo desumanizante. Só que Lanthimos, novamente, complica tudo. Ele injeta na personagem uma humanidade ambígua, suficiente para que ela pareça vítima de algo maior, suficiente para que o público flutue entre culpa e empatia, entre rejeição e piedade. É como se a própria Emma Stone encarnasse um sistema que tenta disfarçar sua crueldade usando a máscara da afetividade corporativa. E o filme joga com isso de forma brilhante, sem entregar respostas nem alinhamentos fáceis. Quando ela é sequestrada e colocada em cárcere privado, acusada absurdamente de ser uma alienígena, a narrativa se torna ainda mais provocadora. Porque, à primeira vista, tudo parece muito simples: dois homens quebrados pelo mundo sequestrando a representante do poder. Mas a simplicidade é só o verniz. Por baixo, Lanthimos expõe uma hipnose coletiva: a de que todo sofrimento individual precisa ser transformado em teoria conspiratória, de que toda vulnerabilidade pode servir de gatilho para justificar o inaceitável. Plemons e Delben não sequestram apenas uma mulher rica; sequestram uma ideia, a de que existe alguém, em algum lugar, controlando suas vidas. Uma alienígena, um governo invisível, um sistema. Tanto faz: o alvo é apenas o espelho de suas próprias fraturas. E é aqui que o espectador percebe que foi manipulado desde o início. Porque Lanthimos nos posiciona emocionalmente de forma quase instintiva, e depois torce, distorce, desmonta tudo. Ele nos faz simpatizar com quem não deveria, desconfiar de quem talvez não mereça, e sobretudo revisar, a cada cena, nossa tendência de separar o mundo entre vítimas e algozes. Em Bugonia, ninguém é totalmente uma coisa só. Todos são simultaneamente consequência e causa, produto e agente do próprio colapso moral. O brilhantismo do filme está justamente nisso: na maneira como ele transforma uma narrativa aparentemente simples, dois homens isolados sequestrando uma empresária, em um experimento emocional sobre manipulação, trauma, ideologia, ressentimento e poder. AQUI COMEÇAM OS SPOILERS DE BUGONIA. SE VOCÊ NÃO VIU O FILME PARE DE LER AGORA. Depois de uma hora e meia construída sobre a certeza absoluta de que o personagem interpretado por Jesse Plemons é um paranoico tomado por teorias delirantes, a personagem de Emma Stone aproveitando se da vulnerabilidade emocional dele arma uma fuga engenhosa e imediatamente depois solicita resgate de sua nave espacial revelando se exatamente aquilo que Plemons afirmava desde o início. É um choque calculado. A CEO sequestrada é de fato uma alienígena infiltrada entre os humanos. A surpresa continua no epílogo quando outros membros de sua espécie surgem e revelam ter poder para exterminar a humanidade e fazem isso com uma indiferença cômica, absurda e quase infantil. A destruição do planeta se torna gag, sketch, piada interna. E é tão inesperada que parte do público interpreta como se o filme tivesse dado razão ao conspiracionista. Mas é aí que reside a genialidade. Nada, absolutamente nada do que o final mostra invalida a crítica construída antes. O personagem interpretado por Plemons não se torna herói. Torna-se piada cósmica. Um homem emocionalmente destruído que acerta sua teoria, não é validado pela narrativa. É ridicularizado por ela. O final de Bugonia é cômico porque precisa ser cômico. É absurdo porque precisa ser absurdo. É exagerado porque ao literalizar a fantasia conspiratória revela a própria estupidez dessa fantasia. Lanthimos decide inserir seres alienígenas e extermínio global não para glorificar teorias insanas mas para expor o ridículo de acreditar nelas. O exagero é tão escancarado que denuncia a própria crença. Emma Stone revelando se extraterrestre funciona como sátira. Carrega o artificial, o farsesco, o exagerado. A cena é montada para parecer caricata, não épica. Para parecer risível, não solene. Para provocar o espectador a olhar para aquilo e pensar: É isso que essas pessoas realmente imaginam quando falam em elites reptilianas comandando o mundo. O epílogo apenas leva o delírio até o limite final e ao fazê-lo destrói sua credibilidade. Ao matar a humanidade como se fosse uma piada Yorgos demonstra o quão absurda é a estrutura imaginária que sustenta homens como os personagens de Plemons e Delben. Nada é sério. Nada é mítico. Nada é conspiratório no sentido tradicional. É teatro cósmico. É ironia pura. E ainda assim é devastador. Os cinco minutos finais de Bugonia são uma síntese arrebatadora do cinema de Lanthimos. Tragicômicos, ferozes, visuais, desconfortáveis e inesquecíveis. O filme traz o universo fantástico para iluminar o colapso humano, expõe a fragilidade emocional que leva tantos homens ao extremismo, revela a inocência simbólica dos animais frente ao ridículo humano, critica incels e sistemas, critica elites e desesperados e termina com um riso amargo, trágico e libertador. Bugonia termina rindo. Não com Jesse Plemons, mas dele. E ao mesmo tempo nos deixa pensativos nos escancarando uma sociedade humana sórdida. E exatamente por isso que o filme é brilhante!