Avatar (2009)
Direção: James Cameron

Desde os primeiros minutos, Avatar deixa claro que não será um filme sobre descoberta, mas sobre esgotamento. A narração em off de Jake Sully não introduz um mundo novo, ela denuncia um mundo velho. Há cansaço na voz, desconfiança no olhar e uma relação já quebrada com a própria ideia de progresso. Antes mesmo de Pandora aparecer, o filme já aponta para o verdadeiro antagonista, um sistema que transforma corpos em ferramentas e territórios em mercadoria.
Jake não parte como herói. Parte como sobra. Ex fuzileiro naval, paraplégico, descartado pela engrenagem que agora volta a chamá lo apenas porque ele serve a um propósito específico, tem a genética igual a de seu irmão gêmeo morto. A missão se exemplofica como uma oportunidade de sobreviver dentro de um mundo que já o expulsou simbolicamente. Quando aceita, ele demonstra resignação como consequência de um idealismo oculto. A promessa de “voltar a andar” funciona como suborno existencial. O sistema compra sua esperança antes de comprar sua lealdade.
Ao chegar em Pandora, a primeira imagem verdadeiramente reveladora não é a floresta, mas a guerra. Um tanque gigantesco com flechas cravadas nos pneus. A tecnologia humana já marcada pela resistência local. A floresta já respondeu antes mesmo de qualquer negociação. A imagem sintetiza todo o conflito, a máquina avança, mas não avança intacta. A invasão é dolorida mas já é evidente que Pandora já reage a muito tempo.
A apresentação do coronel Quaritch confirma que não estamos diante de um indivíduo complexo, mas de uma ideologia encarnada. Cameron o constrói visualmente, botas, uniforme, postura, cicatriz. Não há subjetividade ali, apenas função. A violência não é trauma, é currículo. Quaritch não representa apenas o militar agressivo, mas a lógica reacionária que serve como braço armado de interesses econômicos. Ele não aprende, não hesita, não se transforma. Ele executa.
Em contraste direto, Grace Augustine surge como corpo estranho dentro dessa engrenagem. Sua autoridade vem da convivência. Ela conhece Pandora como um sistema a ser compreendido atraves do limite da ética. Ela observa, escuta, se irrita, entra em atrito com a corporação. Sua presença incomoda porque ela atrasa o inevitável. E, justamente por isso, sua morte se tornará inevitável quando a violência ultrapassar o ponto de retorno.
Entre o militar e a cientista está Parker Selfridge, talvez o personagem mais assustador do filme por enfatizar uma racionalidade administrativa. Parker não odeia os Na’vi. Ele os considera um problema logístico. Quando segura um fragmento de unobtainium e afirma “é por isso que estamos aqui”, o filme abandona qualquer sutileza, tudo o que está vivo se torna secundário diante do valor da mercadoria. A “pedrinha cinza” não alimenta, não cura, não conecta.É o símbolo perfeito do capitalismo tardio, no qual o valor abstrato se sobrepõe à vida concreta.
A palavra que Parker usa, “selvagens”, não é gratuita. Ela carrega uma história inteira de colonizações, expulsões e massacres justificados em nome do progresso. Pandora passa a funcionar como espelho da Terra, a invasão europeia, a catequese forçada, a exploração de recursos, a destruição de culturas inteiras sob o discurso civilizatório. Cameron está deslocando a história para outro planeta para torná-la novamente visível.
A escolha de fazer os Na’vi azuis participa desse deslocamento. A cor os afasta de uma equivalência literal com qualquer etnia específica, mas preserva o arquétipo do povo profundamente conectado à terra. O azul os coloca fora do registro imediato do “humano”, sem desumanizá los. Eles são outros, mas não estranhos. A alteridade aqui não é ameaça.
Quando Jake entra em seu Avatar pela primeira vez, o filme muda de eixo. A reação dele é corporal. Ele corre, cai, ri, toca o chão. A liberdade é literalmente uma experiência física. Jake foi privado do próprio corpo, e o Avatar devolve algo fundamental, o direito de sentir o mundo com inteireza. A euforia inicial, é abstinência de vida que explode em movimento.
Grace observa essa atitude com ambiguidade. Ela repreende o risco, a quebra de protocolo, mas, ao oferecer a Jake uma fruta de Pandora, reconhece algo que vai além da disciplina. O gesto é simples e simbólico, ela não entrega uma arma, nem um manual, nem uma ordem. Entrega alimento. Conhecer Pandora, é provar dela, deixar-se afetar. A ciência, ali, toca a sensibilidade.
A missão de Jake se revela então em sua forma mais crua, ele não é apenas visitante, é infiltrado. A palavra importa. Ele aprende enquanto mente. Observa enquanto coleta dados. Se aproxima enquanto viabiliza a destruição. Seu sorriso ao aceitar a missão é carência total. É o sorriso de quem foi reintegrado a um sistema que antes o havia descartado. A promessa de voltar “à ativa” pesa mais do que qualquer alerta ético naquele momento.
Pandora, por sua vez, é apresentada como linguagem. As cores são narrativas. Os sons são comunicação. A bioluminescência, é pulsação. Cameron usa a tecnologia máxima para criar a sensação de natureza absoluta. O paradoxo é evidente, o ápice do artifício serve para despertar o desejo de um mundo sem artifício. O espectador se envolve porque quer aquele lugar vivo.
A espiritualidade Na’vi surge escancarada. Superstição jamais foi uma hipótese ali. A intimidade com o ambiente é uma certeza absoluta. Eywa não é um Deus distante, é a própria rede de conexões entre seres vivos. Isso se torna claro na cena em que Neytiri quase mata Jake, mas uma semente da Árvore Sagrada pousa sobre sua flecha. O gesto é sinal de que a floresta responde.
Mais tarde, quando as sementes envolvem o corpo de Jake justamente no momento em que Neytiri o expulsa, a ambiguidade se aprofunda. Ele deixa de ser apenas ameaça e passa a ser enigma. Eywa não absolve, mas marca. O filme desloca a decisão do campo individual para o campo cosmológico. Não é Neytiri que “perdoa”, é o sistema vivo que interfere.
A fé Na’vi, nesse sentido, se diferencia tanto da fé humana quanto da ciência instrumental. Ela não separa o sagrado do cotidiano. Não precisa de templo porque o mundo é o templo. Em contraste, a fé humana aparece esvaziada ou instrumentalizada, convivendo sem conflito com a devastação. A ciência humana, por sua vez, se divide, há a ciência que mede para explorar e a ciência que busca compreender para preservar. O conflito não é entre fé e ciência, mas entre vínculo e extração.
Ao longo de meses convivendo com os Na’vi, Jake aprende gestos que lembram práticas indígenas, pedir licença, agradecer, reconhecer a morte como parte do ciclo. Ele se transforma pelo cotidiano e ainda assim, permanece mentiroso. Permanece infiltrado. Seu discurso de aprendizado esconde uma finalidade. A jornada não é limpa.
A frase que ele pronuncia após o rito de união na Floresta Sagrada, “que merda você está fazendo, Jake?”, marca o ponto exato do atraso moral. Ele se questiona depois de amar, depois de pertencer, depois de receber tudo. A consciência chega tarde. E o filme faz questão de conectar esse momento íntimo ao início da devastação. Amor e culpa se cruzam. Desejo e destruição caminham juntos.
A queda de parte florestal de suas moradias rompe qualquer ilusão restante. É genocídio simbólico em um local que concentra memória, ancestralidade, continuidade. Equivalente, na Terra, à destruição de territórios indígenas, florestas sagradas, mundos inteiros que não podem ser simplesmente reconstruídos em outro lugar. Cameron filma o evento como luto coletivo. O silêncio pesa mais do que as explosões.
A fuga dos prisioneiros, Jack e Grace, marca o início explícito da guerra humana. Quando o coronel atira contra o helicóptero em retirada, a mensagem é clara, não há mais espaço para dissidência. Um dos tiros atinge Grace. A guerra começa eliminando quem tentou impedi-la. A tentativa de salvá la na Árvore das Almas falha. Eywa escuta, mas não reverte. O filme afirma, com dureza, que há danos que nem o sagrado repara. A espiritualidade não funciona como botão de correção tardia.
A partir daí, o roteiro acelera. Jake é rejeitado, expulso, isolado. Cameron recorre a atalhos míticos para reorganizar o conflito. A tomada do Toruk Makto acontece rápido demais, resolvendo em poucos minutos uma crise de legitimidade que merecia mais tempo e resistência interna. Funciona como mito, mas fragiliza o processo dramático. O mesmo ocorre na grande batalha final. Tecnicamente impressionante, ela se torna, em alguns momentos, visualmente saturada. Quando os animais de Pandora entram em cena e viram o jogo, estamos diante de um Deus ex-machina assumido. Tematicamente coerente, o planeta reage, mas narrativamente conveniente.
A fala “eu tenho quinze clãs lá fora”, dita por Jake já fora do Avatar, expõe uma tensão incômoda. Mesmo arrependido, ele ainda fala a linguagem da posse. A liderança se concentra nele, e o risco do mito do salvador branco não desaparece por completo. Cameron tenta equilibrar essa centralidade com a força coletiva dos Na’vi, mas a contradição permanece.
O final do filme tenta fechar essas feridas sem apagá las. Os humanos são expulsos de Pandora de maneira relativamente limpa. O sistema, no entanto, não cai, apenas recua. A vitória interrompe o horror, mas não o repara. Jake decide transferir sua consciência definitivamente para o corpo Na’vi. É uma escolha radical, abandonar o mundo extrativo e abraçar o mundo do vínculo. Um gesto de pertencimento absoluto e ao mesmo tempo, uma decisão controversa, porque encerra a narrativa ainda a partir dele.
Avatar se encerra como um gesto político incompleto. A travessia de Jake resolve um percurso individual, mas não desorganiza a engrenagem que produz a violência. O colonialismo é exposto, nomeado, derrotado localmente, enquanto sua lógica permanece operante, pronta para reaparecer sob outra forma. Cameron constrói um épico que denuncia a ocupação, a extração e a guerra, mas ainda depende das mesmas estruturas narrativas que centralizam o poder e individualizam a ruptura. Essa contradição não enfraquece o filme, revela seu limite histórico. Avatar permanece como obra que reconhece o estrago, reage a ele, mas chega quando o dano já está instalado, e talvez por isso continue atual, não como solução, mas como sintoma de um mundo que insiste em salvar territórios sem desmontar os sistemas que os destroem.
