Adolescência (2025)
Direção: Philip Barantini

Adolescência, da Netflix, é uma obra que começa como um crime e termina como um espelho. Em quatro episódios filmados em planos-sequência imersivos, acompanhamos Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado de matar uma colega. Mas a série deixa claro desde o início que a pergunta não é “quem fez?”, e sim: “o que deixamos de fazer para que isso acontecesse?”
Não estamos diante de uma narrativa policial. Estamos diante do colapso de uma estrutura. A cada plano contínuo, a série dissolve a ideia de que há um culpado isolado. Jamie não é um vilão. Também não é herói. Ele é o resultado de silêncios cumulativos, de olhares desviados, de conversas interrompidas antes de começarem. Ele é um garoto sem vocabulário emocional, lançado num mundo que exige maturidade e entrega desatenção.
Jamie vive dentro da caverna de Platão. O que ele vê não é a realidade, mas projeções: curtidas, exclusões, exigências, aparências. Vive acorrentado por uma cultura que prefere a performance à escuta. Nada do que ele vê o liberta. E ninguém aparece para ajudá-lo a sair. Sócrates, se estivesse ali, talvez perguntasse: “O que você sente?” Mas o mundo adulto da série não pergunta. Apenas supõe, pune, e quando percebe que algo estava errado, já é tarde.
A série é feita de pontos de virada silenciosos, mas um dos mais contundentes é o diálogo entre o policial que investiga o caso e seu filho adolescente. O pai está obcecado em encontrar a faca do crime, como se a resolução estivesse no objeto, na evidência concreta. Mas o filho, com uma maturidade emocional que falta aos adultos, o confronta: “Você quer saber onde está a faca, ou entender o que aconteceu de verdade?” É uma pergunta que ressoa como um golpe filosófico. Como um gesto socrático que desarma. O filho, ali, vira mestre. Não oferece resposta, oferece abismo.
Freud talvez visse em Jamie a manifestação clara do recalque emocional: aquilo que não se nomeia, se acumula. Aquilo que não se escuta, adoece. A pulsão que não encontra linguagem se transforma em sintoma. E em Jamie, o sintoma é o silêncio, a apatia, a raiva engolida, a tensão prestes a romper. Ele não age porque quer. Age porque não suporta mais não ser ouvido. Dostoiévski, por sua vez, enxergaria nele o reflexo de Raskólnikov: não alguém que busca a violência por prazer, mas alguém esmagado por um mundo de contradições morais e afetivas. Alguém que tenta justificar racionalmente o insuportável, mas que acaba sendo julgado não por tribunais, e sim pela própria alma. O crime não é o fim. É o início do castigo interior. E esse castigo é partilhado por todos à sua volta. Mas é no quarto episódio, no silêncio do quarto dos pais de Jamie, sentados à beira da cama, que a série atinge sua nota mais alta. A mãe pergunta, como quem já sabe que não terá resposta: “O que fizemos de errado?” E o pai responde com um fio de voz: “Eu nunca bati nele. Porque meu pai me espancava.” O que segue são fragmentos de tentativas de compreender o que falhou. São perguntas atrás de perguntas. São dois adultos diante de si mesmos, tentando revisitar o passado para encontrar um ponto de origem, um momento onde tudo poderia ter sido diferente. Esse diálogo é profundamente sartriano. Para Sartre, somos condenados a ser livres. Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, e pelas que não fazemos. O pai tentou ser melhor que o pai que teve. Escolheu o silêncio no lugar da violência. Mas agora se vê responsável por um filho que ele não compreendeu, por uma dor que ele não soube tocar. A angústia ali não é culpa jurídica, é o peso da liberdade mal conduzida, do amor que não encontrou forma. A mãe, por sua vez, mergulha em uma espiral de incompreensão. Busca sentido no absurdo, como quem pede lógica ao caos. Ela representa Camus: o humano diante de uma tragédia que não faz sentido, mas que precisa ser vivida mesmo assim. O absurdo, para Camus, não é a falta de sentido, é a tentativa de encontrar sentido num mundo que não se explica. Ela quer entender, mas tudo o que recebe de volta é o silêncio do quarto, o vazio da ausência, a ausência de um filho que ainda está vivo, mas já não está mais ali.
Adolescência é uma série sobre os gestos que não foram feitos. Sobre as palavras que não foram ditas. Sobre os olhos que passaram por cima. É uma série que não aponta culpados, mas nos oferece um espelho incômodo. No lugar da pergunta “quem?”, ela nos entrega outra, muito mais urgente: “quantos Jamies ainda vamos ignorar antes que seja tarde?”. Não há resolução. Não há justiça plena. Há uma espécie de luto coletivo. E talvez essa seja a maior ousadia da série: mostrar que o crime não começou com a faca. Começou muito antes. Começou com a nossa incapacidade de olhar, escutar, tocar, cuidar.Talvez Jamie não precise de julgamento. Precise de alguém que lhe pergunte, pela primeira vez de verdade: “Você está bem?”
E talvez nós, enquanto sociedade, estejamos todos à beira da mesma cama, perguntando a nós mesmos: “O que fizemos? O que deixamos de ser?”
Adolescência não resolve. Não consola. Não redime.Mas nos deixa diante de um espelho que já não devolve nosso reflexo, apenas o vulto do que deixamos desabar em silêncio.
Não há grito final, só o eco daquilo que nunca foi dito.E é nesse eco que a série permanece, como uma cicatriz onde deveria haver um abraço.
