Críticas

A Hora do Mal (2025)

Direção: Zach Cregger

A Hora do Mal (2025)
A Hora do Mal, de Zach Cregger, se constrói como uma janela entreaberta, pedindo para ser espionado. A cada cena, o espectador sente o impulso de se inclinar para ver mais, mesmo sabendo que algo pode estar olhando de volta. A narrativa é fragmentada, contada em capítulos que se cruzam e se contradizem, como se cada personagem fosse uma testemunha imperfeita. Essa escolha acentua a tensão do ponto de vista que O Bebê de Rosemary (1968) tão bem explorou. Estamos sempre presos à percepção de alguém, limitados por aquilo que ele ou ela pode ou quer nos mostrar. A incerteza não é falha, é método. Gladys (Amy Madigan) é a síntese dessa ambiguidade. Sua simpatia exagerada e seu olhar que permanece um segundo a mais sobre o outro criam fissuras no cotidiano, sugerindo que o terror pode estar naquilo que se apresenta como mais seguro. Visualmente, o filme mergulha no voyeurismo hitchcockiano. A câmera de Larkin Seiple se coloca atrás de portas semiabertas, por entre cortinas ou na borda da rua iluminada apenas por um poste. Como em Janela Indiscreta (1954), a distância nunca é proteção. É parte da tensão. O espectador não observa de fora, mas de longe e essa diferença é crucial. Ao mesmo tempo, Cregger injeta um tempero oitentista na construção. Tal qual A Hora do Espanto (1985) e Uma Noite Alucinante (Evil Dead II, 1987), há uma mescla de horror genuíno com momentos que flertam com o absurdo ou o humor involuntário. Um corte abrupto para uma situação trivial logo após uma cena de alta tensão não alivia, mas acentua a estranheza, como se o filme piscasse para o público. O som, assinado pelos irmãos Holladay, é quase clínico. Batidas secas e compassadas funcionam como um relógio interno, lembrando que o tempo do espectador é emprestado. Pequenos detalhes, um ruído de talher metálico, um estalar de madeira, um passo fora do quadro, funcionam como iscas para a paranoia. E quando a última peça do mistério se encaixa, a tensão acumulada não se dissolve em silêncio. Ela irrompe em uma sequência de pura intensidade, capaz de provocar um turbilhão de sensações — alívio, horror, fascínio, nojo e até risos. É um instante em que o filme abandona a contenção e mergulha no caos controlado, onde a narrativa deixa de observar e passa a consumir tudo à sua volta. Uma explosão de energia que transforma cada olhar acumulado até aqui em impacto físico, encerrando a história como um acerto de contas que não poderia ser evitado.